"Sierra de Gre2"

A noite foi curta. O filme da queda insistia em permanecer no meu ecrã com todas as dúvidas a martelarem-me o cérebro.

O vento que durante a tarde tinha atingido os 100 km/h e obrigado os resistentes que permaneciam nas tendas a refugiar-se dentro de casa soprava de tal modo que tornava impossível esquecer o ambiente inóspito que estava do lado de fora.

Não preguei olho até às 0:30. Hora a que saí à rua para aliviar a bexiga e vi que a tempestade tinha acabado. Foi como se tivesse acabado a bateria ao soprador. Puff!

O céu começou a apresentar abertas, a neve deixou de cair e o vento desaparecera.

A minha pulsação baixou, voltando ao regime aeróbico. Regressado ao quarto, o sono deve ter tomado conta do meu corpo por volta da 1:30 da manhã.

Acordei com dor de cabeça, eventualmente provocada pelo dilema de não estar confortável comigo mesmo. Tinha deixado que a insensatez tomasse conta de nós e não tinha tido a coragem de dizer que não. No dia anterior deixei-me levar por uma excitação infantil que por pouco não acabou em tragédia. A culpa do que nos acontece é sempre nossa e por isso é tão difícil aceitá-la. Apeteceu-me ir embora.

Mas fugir do problema também não me parecia solução. Aliás nunca foi. A minha educação e consciência sempre me obrigaram a enfrentar os dilemas.

Tomámos o pequeno-almoço já o sol aparecia por trás das nuvens. O Circo de Gredos estava lindo com os cumes todos brancos e com pedaços de céu azul a transparecer por trás das nuvens.

A azáfama no refúgio era grande. Todos os grupos (que deviam atingir as 80 pessoas) se preparavam para sair. Nós mantínhamo-nos calmos como se não tivéssemos pressa para nada. Nem sequer tínhamos decidido o que fazer.

Por outro lado com a quantidade de gente que circulava dentro e fora do refúgio era impossível chegarmos aos nossos cacifos e prepararmos a mochilas. A vontade, nesta altura, também não era muita, confesso.

A dor de cabeça foi desaparecendo e o sol ia arrancando sorrisos à medida que os grupos largavam o refúgio.

Decidimos subir ao Ameal del Pablo, um cume secundário que fica muito perto do refúgio mas tecnicamente mais exigente que o Almanzor pois implica alguma escalada, principalmente no Inverno.

Fomos os últimos a abandonar o refúgio já passava das 10h, aliás fomos “expulsos”, pois era a hora da limpeza.

O acesso à base da face norte do Ameal faz-se por um corredor chamado Canal Negra com cerca de 45º a 50º de inclinação. Em situação normal com neve dura é possível subi-lo a solo (sem corda), o que não era o caso.

Subimos todo o corredor em “ensamble” que consiste em subir em cordada onde o primeiro elemento da cordada à medida que progride coloca pontos de segurança intermédia que o último vai retirando, deixando sempre, pelo menos 2 pontos entre os membros. Quando o primeiro de cordada fica sem equipamento juntam-se e ou trocam o material retirado ou passa o último elemento a subir à frente da corda.

Com cerca de uma hora de avanço estava uma outra cordada de 3 elementos que nos deixaram o trilho aberto facilitando a progressão ou aumentaram o risco de corte de placas de avalanche (este estigma não nos saía da cabeça).

Chegados à base da via normal de acesso ao cume montámos uma reunião e o Jorge, que é o homem que não tem medo de nada (ou não tinha, conforme se confirma no vídeo) iniciou a ascensão colocando pontos de segurança intermédia, seguido do Pedro de “Sintra”. No fim da cordada seguia eu cabendo-me a função de limpeza do material deixado pelo Pedro.

Subimos em “ensamble” nas zonas fáceis e em progressão de escalada tradicional sempre que a inclinação ou a dificuldade assim o exigia.

Devido à quantidade de neve não foi fácil encontrarmos o acesso à via normal e, como já vem sendo hábito, enganámo-nos na via. Subimos por uma via alternativa, mais difícil mas bem mais interessante não fosse o frio e a dúvida permanente sobre a descida.

Não foi sem nervosismo e com alguma irritação que cheguei ao cume por estar mais uma vez a arriscar-me por terrenos desconhecidos e a regressar ao refúgio já noite dentro quando encontramos a outra cordada. O Luís, o Artur e o Christy (um italiano castiço à brava) tinham subido pela face oeste e estavam a montar um rapel numa via de descida directa à base.

Tudo está bem quando acaba bem. De repente toda a ansiedade que me embaciava o raciocínio desapareceu. Tirei a mochila, vesti o blusão de penas e servi-me de um chá quentinh que trazia num “thermo”. Eram 17h e foi o chá das cinco mais reconfortante que já tomei até hoje.

Servi várias canecas de chá que ofereci aos outros compinchas.

Terminámos a descida deixando uma fita e um “maillon” (mosquetão em ferro mais barato que é usado quando se pretende abandonar material nas vias) e em 10 minutos tínhamos descido o corredor oeste do Ameal estando a 30 min de marcha lenta até ao refúgio.

Os raios de já sol roçavam os cumes em diagonal no tom alaranjado típico do fim de tarde.

Houve tempo para muita conversa, fotografias e sku na neve.

Estávamos de volta às 18:45 já com os outros grupos sentados em amena cavaqueira, na sala de convívio/jantar.

Boa hora para se chegar, comentámos. É que assim tínhamos espaço de sobra para arrumar a tralha, mudar de roupa e ainda tomar um duche com toalhetes dodot. Assim fizemos.

Foi com a cara avermelhada do frio que tivemos um manjar dos deuses (pelo menos assim nos soube) regado com rioja tinto, à temperatura ambiente, e nos deixámos a conversar com os recém chegados amigos.

Um bem haja ao Christy, ao Luís Ferreira e ao Artur pela boa disposição e energia positiva gerada.

Restou-nos uma noite de sono reconfortante, sem tormentos, que durou mais de 8 horas seguidas, sem interrupções.

O regresso ao carro fez-se com calma em jeito de despedida e com planos para futuras actividades, agora com mais 3 amigos. Não soprava uma brisa e as nuvens tinham emigrado. Até estava calor, imagine-se!

Só nos faltava um filete de ternera, com batatas fritas e 2 ovos estrelados, na famosa Bodeguilla. Foi para lá que nos dirigimos.

Bom apetite! E se for caso disso, passem por lá que vale a pena.

Galeria de imagens completa aqui.

Comentários

Anónimo disse…
Que inveja...Um relato que deixa qualquer um faminto de actividades.
Anónimo disse…
Escreves tão bem "puto"! é um orgulho ter um irmão assim!

manamagana
Anónimo disse…
Espero que tenhas ganho juízo, porque agora tens o grande Gaspar por quem tens de olhar.

E nada de encher o peito, e agora na bonança dizer - Epá aquilo estava controlado.

JUÍZO; JUÍZO

Luis Madeira
Anónimo disse…
Bom blog... excelentes registos!!!
Vão dar muito jeito para tirar umas dicas e planear novas actividades.
Gostei de saber que há mais gente neste país que vale a pena conhecer, sobretudo quando vamos lá p`ra fora :), e lá fora é já ali!)
Vocês tiraram uma verdadeira lição de VIDA e além disso ensinaram-me uma "pequena" coisa que me vai ajudar imenso em próximas actividades: o "outro lado" de um dia de temporal na montanha - não os riscos que se correm enquanto escalamos pendentes que podem literalmente pender por ali abaixo - mas a valorizar o que pode acontecer de interessante quando ficamos retidos no refúgio (que tinha sido a nossa opção sensata mas que estava a estragar os nossos planos tão bem delineados!)
Pois é, a Montanha é que manda e nada acontece por acaso...
Continua com as boas actividades e registos!
Clarisse, Figueira da Foz
Luís disse…
Hombre :)

Espero que esteja tudo bem com vocês.

Boas trepadas

Abraço forte

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