Memórias: o bairro Girassol

Vivi, durante muitos anos num bairro chamado Bairro Girassol, na Venda Nova, entre as portas de Benfica e a Amadora. Este bairro era como uma ilha rodeada de bairros e ambientes pouco recomendados. A nascente ficava o bairro das Fontaínhas, a sul o bairro 6 de Maio, junto da Damaia, paredes meias com a Cova da Moura. A nossa casa era um apartamento alugado, com dois quartos, uma sala e uma cozinha de proporções descomunais, de tal modo grande que mais tarde se dividiu em duas partes onde, numa delas ficou o meu quarto.

Este bairro era pacífico, na medida do possível, mas eu sentia que vivia num mundo à parte. Os meus pais tinham ambos instrução, eu tinha regras em casa, não ficava na rua durante os dias de semana até tarde, os meus pais não eram empregados de nenhum dos vizinhos, enquanto que os pais de alguns amigos eram mulheres a dias de alguns de nós ou mesmo funcionários em alguns negócios de outros vizinhos e principalmente, tanto eu como a minha irmã tínhamos uma relação normal com uma instituição chamada escola.

Não foram poucas as vezes que me senti o puto careta, menino da mamã, que não joga à bola nas arcadas nem vai tocar às campainhas dos vizinhos à 1 da manhã só para chatear. Não foram poucas as vezes em que me senti aliviado por não ter paricipado numa qualquer brincadeira palerma que acabou no hospital ou a fugir da polícia.

Mas lembro-me de muitas estórias e personagens dignos de serem relembrados.

Lembro-me do Lelo, filho de uma vizinha que chegou a ser nossa mulher a dias, do Maugão, que vivia numa família da qual nunca percebi as origens nem a relação entre todos eles. Sei que eram da Família do Jesus, treinador de futebol, do Russo, jogador de futebol, eram todos primos uns dos outros e todos chamavam madrinha a uma senhora já de idade, muito simpática, que devia ser o sustento de toda aquela criançada, incluindo um miúdo angolano órfão de pai e mãe. Lembro-me do Zé das Drogas, o dono da farmácia que era um emproado, da Bruxa, a mulher do nosso senhorio e que no Sto António ao pedirmos uma moedinha nos mandava baldes de água pela janela, da Bruaca da mercearia (que já tinha sido da Chica Rata), que trouxe o progresso à mercearia do bairro instalando uma caixa registadora tipo supermercado e uma balança digital para pesar o fiambre. Do senhor Pimpão, que era enfermeiro e não foram poucas as vezes que coseu cabeças partidas pelas brincadeiras dos putos, da dona Ema dos rissóis, da dona Angelina e do senhor Arnaldo (nanala, como eu lhe chamava), do Caguinhas, da Careca, da velha Piscareta e da avó Mangerica, ambas avós do meu vizinho e amigo, filho da cabeleireira que lavava a cabeça das clientes no lava-louças da cozinha, até que se modernizou e montou um cabeleireiro na sala do apartamento onde viviam.

Lembro-me da Tafina que se amigou ao Zé das Drogas, passando este a ser o Tafão e padrasto do Tafilho, da dona Dilma, a padeira casada com o guarda nocturno que dava tiros para o ar às 3 da manhã de modo a espantar os seus próprios medos e que, para além de lhe terem roubado a arma, resolveu interpelar uma senhora que saía do cabeleireiro com um ramo de flores na mão, alegando que não a conhecia e portanto era suspeita. A pobre senhora ia a caminho do cemitério, na sua mais pura devoção a um qualquer familiar perdido. Lembro-me do senhor Quim, um homem estranho que pesava quase 200 quilos e que ganhava a vida a acumular papel num armazém na cave do meu prédio, de um casal que era vizinho da dona Ema, a dos rissóis, e que, sempre que havia eleições ou era feriado nacional, punham a bandeira de Portugal na varanda.

Lembro-me de num dia 31 de Dezembro, pelas 9h da manhã a dona Dilma, a simpática padeira, vestida com a sua bata branca, tocar à nossa campainha para nos avisar que o carro da minha mãe, um Fiat Panda vermelho, estava sem duas rodas. Roubaram as duas rodas do lado direito durante a noite deixando o carro assente em dois toros de madeira.

Lembro-me do café Oh Salsinha, onde comíamos caracóis, do Bigode do Meu Tio com os melhores pastéis de nata do bairro, do supermercado Pão de Açúcar, onde para lá chegar tínhamos que atravessar um descampado, a correr, para não sermos assaltados pelos miúdos do bairro 6 de Maio.

Lembro-me ainda as inúmeras vezes em que se abriam valas ao longo da rua para passar cabos, ora de água, ora de telefone, ora eléctricos, ora por nada, pois havia que dar trabalho às pessoas, principalmente em ano de eleições. Lembro-me das árvores em frente do meu prédio terem todas nome, a árvore dos piolhos, a árvore das aranhas e a nespereira que, na época em que dava fruta, era assaltada pelos putos do bairro das fontaínhas, o que muito arreliava os meus vizinhos.

Não sei o que é feito de todos estes personagens, uns já cá não estão, outros talvez, mas fizeram todos parte de um filme real que preenche muitas das minhas memórias, na Avenida Curry Cabral, do Bairro Girassol.

Continua...

Comentários

jordi disse…
e eu, que me comovo por tudo e por nada, também lá fui para num belo dia de primavera...

Ora, menino, temos aqui a génese de um António Lobo Antunes, mas em versão proleta...

Gostei muito! Continua (mesmo)!
jordi disse…
Errata (como a Chica...):
onde se lê "lá fui para" leia-se "lá fui parar"
zm disse…
Também gostei muito e só aínda não apresentei no blog a minha versão de uma infância igualmente povoada com personagens do Lobo Antunes porque tenho medo de os magoar. De resto o meu cenário não andava muito longe daí, passava-se no alto da Amadora, junto da Maconde, do café Verdi e dos moinhos. Felizmente que temos estas memórias. Elas são (também) a nossa vida.
Um abraço.
ZM
Paimica disse…
...e o grandalhão do sr. Quim que um dia viu passar uma janela de marquise, rentinho á porta do armazém de papel, dando graças aos santos por estar recolhido no interior. Porque um puto charila com muita comichão nos dedos resolveu levantar a janela do carril e depois não se aguentou com o peso...
mãezita disse…
esse mesmo puto charila, uns anos antes do episódio da janela, quando íamos para o "Bigode do meu tio" tomar o café e comer o tal pastel de nata quentinho, perguntava: - ó mãmã, como se chama o teu tio que tem bigode? Dessa não se deve lembrar...
jordi disse…
Pois é, se calhar há um blogue para aí à solta que fala de um puto reguila lá do Bairro Girassol que revirava os vasos das vizinhas e lhes atirava a roupa das gavetas pela janela fora. É um mundo em pluriperspectiva.
manamagana disse…
Havia ainda dois cães, o Mondego e o Faruca, dois rafeirosos meiguinhos e manhosos, que os putos da rua escondiam em grandes correrias quando nos avisavam que vinha aí a carrocinha!
Havia os andaimes dos prédios onde fazíamos acrobacias e os eternos buracos na rua que serviam de trincheiras e esconderijo quando jogávamos às escondidas.
E no meio de tudo isto houve uma mãe desempregada que agarrou na miudagem e criou um grupo de teatro e um espectáculo de variedades (tão importante que se realizou no UPVN a União e Progresso da Venda Nova e em mais 3 ou 4 palcos igualmente famosos). Uma mãe que inventava máscaras para todos os putos no Carnaval, que fazia bolos de coco, cenários, conchas pintadas, esculturas a partir de pedras da calçada, biscoitos deliciosos com formas inusitadas e plantava canteiros com morangos na pequena varanda para nós, mesmo na cidade, podermos ver coisas a crescer!
Há memórias assim, que povoam todos os recantos, mas que precisam de meia dúzia de linhas para virem ao de cima. Obrigado mano.
Filipe disse…
Se a ERA ou a outra megamultinacional imobiliária lerem este post, os preços das casas do Bairro Girassol disparam vertiginosamente. :-)
Haverá alguma Fernando Meirelles português que queira passar esse teu post para filme, qual "Cidade de Deus"? :-)
jordi disse…
E agora em jeito de resposta à manamagana e ao montanhacima: essa mãe é uma mulher que vos dedicou a vida, a juventude e a criatividade. E agora é essa mãe que vocês querem mandar pelos ares?!
Francamente!... Já não há respeito...
Anónimo disse…
Gaita!!!!!
Dizes que continua, mas.......quê?
Devagar, devagarinho ou parado?
andré disse…
não tinhas uma boa vizinha que era a Sónia, eh eh?
silva disse…
que recordações heide eu ter pois nasci na travessa dos salgados na venda nova em 1934 ainda o bairro girassol era a garagem do eduardo jorge,e onde hoje são as finanças passava o rio em céu aberto onde as mulheres iam lavar a roupa velhos tempos Silva
pencocas disse…
Eu tomava conta dos caes, ainda me lembro dos nomes deles, Piloto, Tejo Mondego, Poly e o Arco este ultimo era coxo mas conseguia correr tanto como os outros
Anónimo disse…
Que saudades! Lembro-me de muitas destas personagens...lembro-me da D. Madalena a gritar à janela :Ó Paulinhaaaaaaaaa! quando já eram horas de jantar, da minha avó ( no café da D. Ivone que não servia imperiais com bons modos a lampiões...do canina, do Maugao, da Iola, do Migas e de tantos outros! Crescemos num grande bairro...e sobrevivemos!!,
fabio jesus disse…
Grandes tempos que passámos em casa do Ulisses a jogar ao bate pé...Eu sei quem tu és.Quando quisseres passa na Ivone.Maugão
Anónimo disse…
Sobrevivemos e a maior parte ainda continua no bairro girassol!
mad disse…
As memórias que despertam esta narrativa, pedem quase que partilhemos a nossa juventude, nesse antro de boas memórias a que se chamava a terra santa do Bairro Girassol ou Venda Nova, sim porque a outra do outro lado da estrada era a Venda Nova Velha... Continua, de certeza nos cruzamos e é bom ouvir falar do que nos fez crescer!
Anónimo disse…
Pois as minhas memórias são igualmente doces...das fogueiras de Sto António, do sr.Acácio e da D. Alice da mercearia, dos tempos em que o café da D.Ivone era um bar e fazia bailes de Carnaval para a maltinha do bairro, da D.Madalena chamar pelo "Carlos Virgoliiiiiino" à janela.(já não sou bem do tempo da Paulinha...) da "Sirumba" desenhada na estrada onde jogávamos até às 23h00 nas noites de verão, depois das aulas acabarem, dos jogos de basebol no descampado que hoje é um belo relvado, dos sacos de água que o meu irmão insistia em atirar aos miúdos que brincavam no pátio da "Carochinha", de passar tardes inteiras a andar de patins nas arcadas dos prédios, de ir ao pão da D.Dilma ou à papelaria da D.Irene comprar cromos da Candy Candy, de passar tardes a andar de bicicleta e dar-mos votas a benfica correndo o risco de ficarmos sem elas ao passar nas Portas de Benfica ali ao lado das Fontaínhas....sei lá...tantas memórias eu guardo de uma infância e juventude vividas num bairro onde de vez em quando se ouvia gritar "fujam que vêm lá os **pretos**" mas onde fui muito feliz!!! Queria eu poder deixar os meus filhos brincarem com o à vontade e liberdade que eu tive naqueles anos, naquele bairro!!!
Anónimo disse…
A todos aqueles que se revêm nestas memórias, faço o convite a visitarem a página de facebook "Retalhos da Venda-Nova".

https://www.facebook.com/pages/Retalhos-da-Venda-Nova/251966238168392
Paula Rodrigues disse…
Boas lembranças....bons tempos,sim....muitas tardes a andar de patins à volta dos predios,sentar nas escadas dos predios e vir a avó da Carla Violante do predio do Paulo Filipe e do Fernando gritar connosco para não partirmos as flores....BONS TEMPOS MESMO
Paula da lavandaria da D.Maria
Sónia jesus disse…
A D. Ivone era a minha avó. Lembro me disso tudo e de muito mais. Tenho como amigas de infância até hoje muitas pessoas do bairro girassol. De vez em quando fazemos uns reencontros no salsinha. Deviam aparecer.
UR disse…
Sim senhor, adorei reviver as minhas memórias de infância. Ainda te faltou falar do piteco da dona Antónia, do toninho janela e do puto que te aturava quando eras pequenino.

Mensagens populares