04/10/2005

Estórias comidas...

Na passada sexta-feira, já as horas consumiam o vazio do estômago, alguém sugeriu que ali por perto, e ali referia-se à zona da Av. Estados Unidos da América se poderia enganar a fome numa cervejaria que costuma estar aberta até tarde.

A cervejaria Nova América fica na rua de Entrecampos, perto da Av. EUA, não sei o número da porta mas aqui fica a sugestão: não ponham lá os pés!

A decoração tem o seu charme com azulejos forrados a gordura de fritar batatas e restos de molho tabasco, portas de alumínio cinzento e um cheiro a bifanas de dar a volta a estômago.

Mas como a fome já tomava conta do bom senso arriscámos, sentámo-nos numa mesa e até parecia que a coisa ia correr bem.

Surge do fundo do corredor um empregado corpulento com a barba meia feita (hoje até está na moda) e um odor a refogado de axila que nos distribui as ementas e coloca o típico cesto de pão com 3 bolinhas.

A ideia era fazer uma refeição ligeira pois já badalavam as 22:00.

Sopa: 4 caldos verdes.
Pratos: 2 ovos estrelados com batatas fritas e dois pregos no pão.
Bebidas: duas cervejas pretas, uma sem álcool e uma água sem gás.

Chegaram as bebidas e as sopas e de seguida os ovos com as batatas. Comeram-se as sopas, as senhoras comeram os ovos com as batatas e os senhores beberam as cervejas.

As senhoras continuaram a comer os ovos e as batatas, os senhores a bebericar nas cervejas e… pregos nada.

Passados 20 minutos as senhoras já não tinham sequer os pratos na mesa, as cervejas estavam quentes e a serem poupadas ao milímetro e… pregos nada.

- Olhe se faz favor, ainda faltam os dois pregos (com alguma paciência forçada pois já apetecia gritar).
- Estão já a sair.

Mais 10 minutos e outras tantas passagens do empregado de mãos vazias e o vulcão no estômago entra em erupção fazendo os ácidos chegarem ao cérebro onde se aloja a paciência e a razão.

- Se faz favor, os tais pre…
- Há mais coisas a sair na cozinha… tem que ter paciência (responde-nos com má vontade).

A revolta apodera-se de nós e com a fome à mistura tudo estava à beira do precipício mas, eis senão quando, a rebelião que estava pronta para contra-atacar surge a imagem de um D. Sebastião carregando nos braços dois pratos com duas carcaças com dois bifes lá dentro.

Neste caso, pela boca se calará o peixe…

Mas afinal o que é isto? Quase 40 minutos para grelhar dois bifes e um deles vem praticamente cru?

- Se faz favor podia passar este bife um bocadinho mais…
- Sem uma única palavra o empregado (leia-se, o carrasco) levantou o prego da mesa e levou-o.

Mais 10 minutos e já o D. Sebastião voltara umas quantas vezes mas sem qualquer notícia.
A revolução tomou forma. Bastou um ligeiro movimento e todos nos precipitámos para fora da mesa, dirigimo-nos ao balcão: - A conta por favor!

- Então foram: 4 sopas, 2 pregos…
- Desculpe 2 não. Um. O outro voltou para trás. Ao fim de 40 minutos pois estava cru e como ao fim de 10 ainda não tinha voltado desistimos.

É neste momento que a cozinheira coloca o prego em cima do passa-pratos e o empregado do balcão, com a maior das naturalidades agarra no prego, levanta, com as mãos dele, a metade superior do pão e espreita para o bife fazendo uma cara de espanto como quem diz: - ele há gajos mesmo esquisitos!

É aqui que o meu olhar desperta através do passa-pratos para o interior da cozinha, o centro de operações daquele complexo e não me atrevo a descrever a visão dantesca que tive para não ser obrigado a restringir o acesso a este blog por menores de 18 anos.

Já um trio de empregados girava à nossa volta pois tínhamos pedido uma factura, (o que será isso, perguntavam-se) quando um deles aparece com o recibo preenchido em linguagem hieroglífica, ocupando 4 ou 5 linhas do papel e com um valor que nada tinha a ver com o que se pagou.

- Desculpe, mas não foi isto que eu pedi. Passe-me uma factura como deve ser, discriminada.

A vingança serve-se fria, pensei eu, mas isto ainda pode dar para o torto.

O empregado rasgou a outra factura e com alguma impaciência discriminou, tim-tim por tim-tim, a refeição e sem qualquer pedido de desculpas entregou-nos o malfadado papel que acabou no caixote do lixo à porta do estabelecimento.

Não deixa de ser curioso que a cervejaria em causa se chame Nova América. Ironias do mundo…

Vão passando por cá mas não por lá.

4 comentários:

Paimica disse...

Eu diria mais qualquer coisinha. Na Nova América se por obra do acaso e do infortúnio lá puseres os pés, nunca ,mas mesmo nunca lá ponhas os dentes.

Anónimo disse...

O restaurante Nova América fica no nº53 da dita Rua de Entrecampos em Lisboa.Com tantas inspecções a restaurantes e cafés da nossa cidade,não sei o que andam a fazer os Srs.fiscais...A comida é péssima e a limpeza então...Do atendimento é bom nem falar,até o troco é atirado para cima da mesa com desdém.Para já não falar das cadeiras que são postas em cima das mesas,á hora do fecho do dito restaurante,estando já as toalhas (de pano e as de papel)postas para os almoços do dia seguinte.Belo asseio...Nem nas TASCAS mais rascas,isso acontece,mete nojo.

Anónimo disse...

Nada mais verdadeiro. Tasca autêntica... como poucas em Portugal... adoro o sítio!

Décio disse...

Nova América fantástica !!
Os almoços de sexta são especiais .. maravilhoso bacalhau cozido com grão,
desaconselha-se somente o atendimento do dito D. Sebastião, serve as mesas com seus cascos e com ar de dono da tasca, fantástica !