Estórias comidas...

Na passada sexta-feira, já as horas consumiam o vazio do estômago, alguém sugeriu que ali por perto, e ali referia-se à zona da Av. Estados Unidos da América se poderia enganar a fome numa cervejaria que costuma estar aberta até tarde.

A cervejaria Nova América fica na rua de Entrecampos, perto da Av. EUA, não sei o número da porta mas aqui fica a sugestão: não ponham lá os pés!

A decoração tem o seu charme com azulejos forrados a gordura de fritar batatas e restos de molho tabasco, portas de alumínio cinzento e um cheiro a bifanas de dar a volta a estômago.

Mas como a fome já tomava conta do bom senso arriscámos, sentámo-nos numa mesa e até parecia que a coisa ia correr bem.

Surge do fundo do corredor um empregado corpulento com a barba meia feita (hoje até está na moda) e um odor a refogado de axila que nos distribui as ementas e coloca o típico cesto de pão com 3 bolinhas.

A ideia era fazer uma refeição ligeira pois já badalavam as 22:00.

Sopa: 4 caldos verdes.
Pratos: 2 ovos estrelados com batatas fritas e dois pregos no pão.
Bebidas: duas cervejas pretas, uma sem álcool e uma água sem gás.

Chegaram as bebidas e as sopas e de seguida os ovos com as batatas. Comeram-se as sopas, as senhoras comeram os ovos com as batatas e os senhores beberam as cervejas.

As senhoras continuaram a comer os ovos e as batatas, os senhores a bebericar nas cervejas e… pregos nada.

Passados 20 minutos as senhoras já não tinham sequer os pratos na mesa, as cervejas estavam quentes e a serem poupadas ao milímetro e… pregos nada.

- Olhe se faz favor, ainda faltam os dois pregos (com alguma paciência forçada pois já apetecia gritar).
- Estão já a sair.

Mais 10 minutos e outras tantas passagens do empregado de mãos vazias e o vulcão no estômago entra em erupção fazendo os ácidos chegarem ao cérebro onde se aloja a paciência e a razão.

- Se faz favor, os tais pre…
- Há mais coisas a sair na cozinha… tem que ter paciência (responde-nos com má vontade).

A revolta apodera-se de nós e com a fome à mistura tudo estava à beira do precipício mas, eis senão quando, a rebelião que estava pronta para contra-atacar surge a imagem de um D. Sebastião carregando nos braços dois pratos com duas carcaças com dois bifes lá dentro.

Neste caso, pela boca se calará o peixe…

Mas afinal o que é isto? Quase 40 minutos para grelhar dois bifes e um deles vem praticamente cru?

- Se faz favor podia passar este bife um bocadinho mais…
- Sem uma única palavra o empregado (leia-se, o carrasco) levantou o prego da mesa e levou-o.

Mais 10 minutos e já o D. Sebastião voltara umas quantas vezes mas sem qualquer notícia.
A revolução tomou forma. Bastou um ligeiro movimento e todos nos precipitámos para fora da mesa, dirigimo-nos ao balcão: - A conta por favor!

- Então foram: 4 sopas, 2 pregos…
- Desculpe 2 não. Um. O outro voltou para trás. Ao fim de 40 minutos pois estava cru e como ao fim de 10 ainda não tinha voltado desistimos.

É neste momento que a cozinheira coloca o prego em cima do passa-pratos e o empregado do balcão, com a maior das naturalidades agarra no prego, levanta, com as mãos dele, a metade superior do pão e espreita para o bife fazendo uma cara de espanto como quem diz: - ele há gajos mesmo esquisitos!

É aqui que o meu olhar desperta através do passa-pratos para o interior da cozinha, o centro de operações daquele complexo e não me atrevo a descrever a visão dantesca que tive para não ser obrigado a restringir o acesso a este blog por menores de 18 anos.

Já um trio de empregados girava à nossa volta pois tínhamos pedido uma factura, (o que será isso, perguntavam-se) quando um deles aparece com o recibo preenchido em linguagem hieroglífica, ocupando 4 ou 5 linhas do papel e com um valor que nada tinha a ver com o que se pagou.

- Desculpe, mas não foi isto que eu pedi. Passe-me uma factura como deve ser, discriminada.

A vingança serve-se fria, pensei eu, mas isto ainda pode dar para o torto.

O empregado rasgou a outra factura e com alguma impaciência discriminou, tim-tim por tim-tim, a refeição e sem qualquer pedido de desculpas entregou-nos o malfadado papel que acabou no caixote do lixo à porta do estabelecimento.

Não deixa de ser curioso que a cervejaria em causa se chame Nova América. Ironias do mundo…

Vão passando por cá mas não por lá.

Comentários

Paimica disse…
Eu diria mais qualquer coisinha. Na Nova América se por obra do acaso e do infortúnio lá puseres os pés, nunca ,mas mesmo nunca lá ponhas os dentes.
Anónimo disse…
O restaurante Nova América fica no nº53 da dita Rua de Entrecampos em Lisboa.Com tantas inspecções a restaurantes e cafés da nossa cidade,não sei o que andam a fazer os Srs.fiscais...A comida é péssima e a limpeza então...Do atendimento é bom nem falar,até o troco é atirado para cima da mesa com desdém.Para já não falar das cadeiras que são postas em cima das mesas,á hora do fecho do dito restaurante,estando já as toalhas (de pano e as de papel)postas para os almoços do dia seguinte.Belo asseio...Nem nas TASCAS mais rascas,isso acontece,mete nojo.
Anónimo disse…
Nada mais verdadeiro. Tasca autêntica... como poucas em Portugal... adoro o sítio!
Décio disse…
Nova América fantástica !!
Os almoços de sexta são especiais .. maravilhoso bacalhau cozido com grão,
desaconselha-se somente o atendimento do dito D. Sebastião, serve as mesas com seus cascos e com ar de dono da tasca, fantástica !

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