14/06/2005

Mais uma conquista - parte I

Para quem pergunta porque é que se sobem montanhas ainda não há resposta melhor do que: “- porque elas estão lá!” E assim foi. O Vignemal estava lá das três vezes que lá tentei ir e ainda lá continua mas, desta vez, eu também lá estive. Atingimos o cume às 9:00 do dia 12 de Junho, domingo.

Foi uma ascensão difícil principalmente porque começou em Lisboa às 5:00 da manhã e só terminou 4 dias depois, novamente em Lisboa às 20:00.

Chegámos a Gavarnie ao fim da tarde com o estômago a pedir reforço. Conseguimos um mísero jantar no único estabelecimento aberto naquela vila. As duas empregadas do restaurante pareciam directamente saídas de uma filmagem dos Monthy Python. Servidos de uma lasanha que, em situações normais, eu pagaria para não comer rumámos ao local de bivaque que fica no vale da barragem de Ousseou.

É aqui que ficam os carros e daqui para cima só a pé. São três horas até ao Refúgio de Bayssellance por entre ribeiras, cascatas, marmotas, neve e gelo.

Image Hosted by ImageShack.us
(foto: Luís Madeira)

Aos primeiros passos a dor nas pernas e a falta de ar fazem-nos questionar a razão de estarmos ali mas, ao levantar a cabeça para distrair os olhos fixos nas pedras do caminho as dúvidas dissolvem-se. A paisagem entra-nos na alma e no corpo pelos poros da pele, narinas, olhos e ouvidos, com a intensidade de um trovão. É impossível não ser tocado pela magia desta terra...

Chegámos ao refúgio por volta das 11 da manhã numa cadência própria do andamento de cada um. Quem chega primeiro dá as boas vindas ao seguinte como quem recebe um amigo na sua própria casa. E é assim cada vez que chega mais alguém.

Image Hosted by ImageShack.us
(foto: internet)

Tendo a tarde toda pela frente fez-se um reforço alimentar e seguimos de mãos nos bolsos até ao cume mais próximo que é o Petit Vignemale (3019 m). Em hora e meia estávamos a chegar de novo ao refúgio já com a chuva a apressar-nos o passo.

Image Hosted by ImageShack.us
(foto: Luís Madeira)

Aos relâmpagos sucediam-se os estrondos dos trovões, ecoados pelos montes, que não anunciavam nada de bom. As nuvens desciam e passavam a roçar as paredes do refúgio como que a avisarem de que ali quem manda são as forças da natureza.

Já se notava nos rostos de alguns a apreensão de quem investiu tempo e dinheiro num objectivo que seria a primeira vez para poucos e a terceira ou quarta para muitos.

O jantar dissipou a ansiedade pois a algazarra típica, o cheiro e a fome ajudam a esquecer, por momentos, o porquê da nossa presença ali.

É à hora do jantar que um refúgio de montanha atinge o seu clímax. Somos saudavelmente forçados a partilhar mesas e conversas tornando todos parte de uma mesma família. Gentes de várias nações que ainda vão para a montanha ou que já vêm dela. Quem entra nessa hora sente-se deslocado, como se estivesse a interromper um jantar de família na ceia de Natal

O recolher faz-se cedo até porque no dia seguinte a alvorada é às 5:00 da manhã. O tempo é mais estável de manhã e como grande parte do percurso se faz sobre um glaciar quanto mais cedo mais frio está e portanto mais duro está o gelo facilitando a progressão e diminuindo os riscos.

Por outro lado prevê-se uma romaria de cerca de 80 pessoas ao cume, a ver pela lotação do refúgio, o que aumenta o risco de acidentes e de queda de pedras na trepada final.

Tomámos o pequeno-almoço pelas 5:30 e saímos às 6:00. A manhã estava limpa, sem vento e o céu adivinhava um dia soalheiro. Todas as dúvidas quanto ao estado do tempo se desvaneceram e já se via um ligeiro esboçar de sorrisos no rosto de cada um.

Quando chegámos ao glaciar já se vislumbravam muitos pontos negros semeados pela montanha fora. Afinal não tínhamos saído assim tão cedo e já havia muita gente a passear pela “avenida”.

A travessia do glaciar correu sem sobressaltos muito devido à excelente qualidade em que se encontrava a neve. As fendas estavam cobertas e o gelo bastante sólido facilitando muito a progressão.

Image Hosted by ImageShack.us
(foto: Luís Madeira)

Seguimos, já com o objectivo ao alcance da vista, até à base da falésia de rocha que antecede o cume. São cerca de 100 m de trepada com muita emoção à mistura. As muitas pessoas que já subiam e desciam faziam lembrar os pinos de um jogo de bowling à espera que um qualquer pedregulho os derrubasse num “strike” assustador.

Curioso é que de todos os que aqui estavam nós éramos os únicos com um capacete na cabeça...

5 comentários:

Anónimo disse...

Vais e não dizes nada, meu malandro!

Porque é que não consigo ver as fotos?

Anónimo disse...

Boa Daniel, à quarta foi de vez.

António Vale

mãezita disse...

Dois dias como esses são maiores que três meses de férias. Talvez não te lembres mas já tinhas olhado de perto esse pico em 1992.
Seria daí que te ficou a vontade de o subir?
Beijos
mãe

Paimica disse...

Parabéns pela subida. À terceira foi de vez.
Dizes que "a razão para subir aos cumes é porque estão lá" e eu acrescento "e não se podem trazer para casa". Claro, porque não cabem no congelador.
Pela amostra das fotos aquilo é mesmo lindo. Fico a aguardar a sessão completa.
Bjs

Anónimo disse...

Então já chegaram da "Volta ao Mundo" ... correu tudo bem?
Já não posso ouvir o Aguiar com saudades tuas. Vê se vens cá almoçar connosco.

Helena Valente