13/02/2008

O Temporal

Conforme vos descrevi as condições meteorológicas foram se degradando à medida que a tarde ía avançando.

Como o Pedro estava acampado fora fui ajudá-lo a desmontar a tenda.

Estava assim:

08/02/2008

Não há bela sem senão

Quando tudo parecia estar a correr sobre rodas...





Toda a neve que o limpa neves tinha tirado do meio da estrada estava congelada, tipo pedra encostada ao nosso carro.



O que nos valeu foi a ajuda, preciosa, dos recém chegados amigos.

Mais uma vez, um bem haja ao Luís, ao Artur e ao Christy.

"Sierra de Gre2"

A noite foi curta. O filme da queda insistia em permanecer no meu ecrã com todas as dúvidas a martelarem-me o cérebro.

O vento que durante a tarde tinha atingido os 100 km/h e obrigado os resistentes que permaneciam nas tendas a refugiar-se dentro de casa soprava de tal modo que tornava impossível esquecer o ambiente inóspito que estava do lado de fora.

Não preguei olho até às 0:30. Hora a que saí à rua para aliviar a bexiga e vi que a tempestade tinha acabado. Foi como se tivesse acabado a bateria ao soprador. Puff!

O céu começou a apresentar abertas, a neve deixou de cair e o vento desaparecera.

A minha pulsação baixou, voltando ao regime aeróbico. Regressado ao quarto, o sono deve ter tomado conta do meu corpo por volta da 1:30 da manhã.

Acordei com dor de cabeça, eventualmente provocada pelo dilema de não estar confortável comigo mesmo. Tinha deixado que a insensatez tomasse conta de nós e não tinha tido a coragem de dizer que não. No dia anterior deixei-me levar por uma excitação infantil que por pouco não acabou em tragédia. A culpa do que nos acontece é sempre nossa e por isso é tão difícil aceitá-la. Apeteceu-me ir embora.

Mas fugir do problema também não me parecia solução. Aliás nunca foi. A minha educação e consciência sempre me obrigaram a enfrentar os dilemas.

Tomámos o pequeno-almoço já o sol aparecia por trás das nuvens. O Circo de Gredos estava lindo com os cumes todos brancos e com pedaços de céu azul a transparecer por trás das nuvens.

A azáfama no refúgio era grande. Todos os grupos (que deviam atingir as 80 pessoas) se preparavam para sair. Nós mantínhamo-nos calmos como se não tivéssemos pressa para nada. Nem sequer tínhamos decidido o que fazer.

Por outro lado com a quantidade de gente que circulava dentro e fora do refúgio era impossível chegarmos aos nossos cacifos e prepararmos a mochilas. A vontade, nesta altura, também não era muita, confesso.

A dor de cabeça foi desaparecendo e o sol ia arrancando sorrisos à medida que os grupos largavam o refúgio.

Decidimos subir ao Ameal del Pablo, um cume secundário que fica muito perto do refúgio mas tecnicamente mais exigente que o Almanzor pois implica alguma escalada, principalmente no Inverno.

Fomos os últimos a abandonar o refúgio já passava das 10h, aliás fomos “expulsos”, pois era a hora da limpeza.

O acesso à base da face norte do Ameal faz-se por um corredor chamado Canal Negra com cerca de 45º a 50º de inclinação. Em situação normal com neve dura é possível subi-lo a solo (sem corda), o que não era o caso.

Subimos todo o corredor em “ensamble” que consiste em subir em cordada onde o primeiro elemento da cordada à medida que progride coloca pontos de segurança intermédia que o último vai retirando, deixando sempre, pelo menos 2 pontos entre os membros. Quando o primeiro de cordada fica sem equipamento juntam-se e ou trocam o material retirado ou passa o último elemento a subir à frente da corda.

Com cerca de uma hora de avanço estava uma outra cordada de 3 elementos que nos deixaram o trilho aberto facilitando a progressão ou aumentaram o risco de corte de placas de avalanche (este estigma não nos saía da cabeça).

Chegados à base da via normal de acesso ao cume montámos uma reunião e o Jorge, que é o homem que não tem medo de nada (ou não tinha, conforme se confirma no vídeo) iniciou a ascensão colocando pontos de segurança intermédia, seguido do Pedro de “Sintra”. No fim da cordada seguia eu cabendo-me a função de limpeza do material deixado pelo Pedro.

Subimos em “ensamble” nas zonas fáceis e em progressão de escalada tradicional sempre que a inclinação ou a dificuldade assim o exigia.

Devido à quantidade de neve não foi fácil encontrarmos o acesso à via normal e, como já vem sendo hábito, enganámo-nos na via. Subimos por uma via alternativa, mais difícil mas bem mais interessante não fosse o frio e a dúvida permanente sobre a descida.

Não foi sem nervosismo e com alguma irritação que cheguei ao cume por estar mais uma vez a arriscar-me por terrenos desconhecidos e a regressar ao refúgio já noite dentro quando encontramos a outra cordada. O Luís, o Artur e o Christy (um italiano castiço à brava) tinham subido pela face oeste e estavam a montar um rapel numa via de descida directa à base.

Tudo está bem quando acaba bem. De repente toda a ansiedade que me embaciava o raciocínio desapareceu. Tirei a mochila, vesti o blusão de penas e servi-me de um chá quentinh que trazia num “thermo”. Eram 17h e foi o chá das cinco mais reconfortante que já tomei até hoje.

Servi várias canecas de chá que ofereci aos outros compinchas.

Terminámos a descida deixando uma fita e um “maillon” (mosquetão em ferro mais barato que é usado quando se pretende abandonar material nas vias) e em 10 minutos tínhamos descido o corredor oeste do Ameal estando a 30 min de marcha lenta até ao refúgio.

Os raios de já sol roçavam os cumes em diagonal no tom alaranjado típico do fim de tarde.

Houve tempo para muita conversa, fotografias e sku na neve.

Estávamos de volta às 18:45 já com os outros grupos sentados em amena cavaqueira, na sala de convívio/jantar.

Boa hora para se chegar, comentámos. É que assim tínhamos espaço de sobra para arrumar a tralha, mudar de roupa e ainda tomar um duche com toalhetes dodot. Assim fizemos.

Foi com a cara avermelhada do frio que tivemos um manjar dos deuses (pelo menos assim nos soube) regado com rioja tinto, à temperatura ambiente, e nos deixámos a conversar com os recém chegados amigos.

Um bem haja ao Christy, ao Luís Ferreira e ao Artur pela boa disposição e energia positiva gerada.

Restou-nos uma noite de sono reconfortante, sem tormentos, que durou mais de 8 horas seguidas, sem interrupções.

O regresso ao carro fez-se com calma em jeito de despedida e com planos para futuras actividades, agora com mais 3 amigos. Não soprava uma brisa e as nuvens tinham emigrado. Até estava calor, imagine-se!

Só nos faltava um filete de ternera, com batatas fritas e 2 ovos estrelados, na famosa Bodeguilla. Foi para lá que nos dirigimos.

Bom apetite! E se for caso disso, passem por lá que vale a pena.

Galeria de imagens completa aqui.

07/02/2008

A confissão

Avalaaan…aaalho!!!!

Como já vem sendo hábito o Carnaval é passado na montanha, nomeadamente na Sierra de Gredos.

E assim foi. Desta vez o trio fundãolx não pode estar em peso pois o David tinha um plano de treino específico para a maratona de Barcelona.

À última da hora juntou-se a nós o Pedro de Sintra, um quase veterano de guerra nestas andanças, especialista em análise meteorológica pelas fases da Lua (ou não fora ele habitante da Serra da Lua).

Saímos de Lisboa já a noite se fazia escura e à chegada ao Fundão, pelas 0:30, fomos visitados pela PSP numa operação stop. Sem nada a assinalar dirigimo-nos à Pensão Moreira onde uma divinal sopa de feijão me reconfortou e deu energias para uma noite que se avizinhava curta.

As previsões não eram as melhores e como já vem sendo costume anunciava-se tempestade para domingo, aguaceiros para 2ª feira e bom tempo na 3ª no dia em que vínhamos embora (tem sido sempre assim).

A saída do fundão tem como passagem a pastelaria Flor do Fundão onde, apesar do ar carrancudo do empregado, a qualidade e a frescura dos produtos nos dão o kick necessário para 3 horas de viagem.

A chegada à plataforma de Gredos deu-se pelas 11 horas e com os habituais atrasos nos preparativos acabámos por chegar ao refúgio às 3 da tarde.

O tempo já anunciava mudanças e por isso, como se previa um domingo negro eu e o Jorge aproveitámos para fazer um aquecimento subindo um corredor. Estreámo-nos no “canal de las Hoyuelas”. O Pedro, que como se tinha juntado a nós em cima da hora não conseguiu alojamento no refúgio e teve que carregar com tenda ficou a preparar o seu poiso em frente do refúgio.

A neve estava nas condições ideais. As pontas dos “crampons” entravam o suficiente para nos dar segurança sem nos atascarmos. Em menos de uma hora e em ritmo de passeio de família domingueiro chegámos à “portilla de las hoyuelas”.

Descemos em 20 min pelo canal de la Campana com a sensação de dever cumprido.

O gosto por estas coisas não se explica nem se ensina. Sente-se. E nós já vínhamos de sorriso atrás da orelha. Com a excitação típica dos míudos

Já em pleno refúgio com o estômago reconfortado por uma sopa de lentilhas e um prato de carne de vaca estufada com batatas a neve fez-se anunciar. Durante a noite as condições pioraram e a neve e o nevoeiro envolveram o Circo de Gredos.

Na manhã de domingo todos os habitantes do refúgio, que eram mais que muitos, entravam e saíam na vã esperança de ver uma aberta no céu. As nuvens cobriam os cumes em redor do circo de Gredos, nevava ligeiramente e o vento mal se sentia.

Sem nenhum objectivo concreto resolvemos dar um passeio, como muitos outros grupos o fizeram, para desentorpecer as pernas e para enganar o tédio de ficar o dia todo sentado na sala de convívio.

Dirigimo-nos à encosta do “cuchillar de las navajas”. Havia alguma neve acumulada nas zonas baixas que nos fazia afundar os pés.

Iniciámos a subida da encosta e já levávamos perto de uma hora de marcha quando contornámos uma zona rochosa com cerca de 4 m de altura.

Passámos para o patamar acima numa rampa onde a neve atingia os 50 cm. Iniciámos a travessia desta zona em diagonal quando, com neve a chegar ao joelho, eu, que ia à frente, parei e falei para trás que achava que a camada de neve estava demasiado espessa e solta.

Termino estas palavras e sinto o chão a desfazer-se debaixo de mim:

- Avalaaaan……….aaaaaaaaalhoooooooo!!!!!!!!!!

O meu corpo foi sugado iniciando uma descida vertiginosa a uma velocidade incrível. Completamente envolto em neve, sem ver nada, tento a todo o custo manter a cabeça erguida de modo a conseguir respirar.

A descida fez-se em 3 momentos de velocidade diferentes. O primeiro troço muito rápido, depois desacelerou e foi nesta fase que me senti afundar e a seguir, como se alguém me puxasse para baixo um último momento rápido, desta vez mais controlado acabando em posição de auto-detenção, quando a velocidade abrandou.

Levanto-me com a cabeça às voltas como se tivesse sido apanhado numa onda gigante e vejo que o jorge está à minha direita à distância de um braço, são e salvo.

Falta o Pedro, pensei de imediato. Os micro-segundos que levei a localizar o Pedro pareceram uma eternidade.

Vejo-o a uns 20 m de nós ligeiramente mais acima, virado para a encosta a chamar por nós. Nunca imaginou que estivéssemos abaixo dele.

Escapámos de uma experiência a que poucos tiveram acesso, sem um único arranhão. Vem nos livros e existem técnicas de actuação nestas ocasiões. Não passam de teoria.

A sorte e o instinto são as melhores técnicas de sobrevivência.

Analisámos o percurso. Tínhamos descido em 2 segundos o que nos levou cerca de 20min a subir. A zona de rocha que tínhamos contornado estava em linha recta no nosso percurso de descida.

O nosso peso foi suficiente para desenhar uma linha de corte, tipo picotado, na neve mole que se tinha acumulado sobre a neve gelada dos dias frios e secos da semana anterior.

Perdemos muitos minutos a dissecar o assunto. Analisámos e reanalisámos a queda dividindo-a em “frames” como se de um filme se tratasse. Escapámos com sorte e aprendemos muito. Mais em 2 segundos do que em 10 anos de montanhismo.

São estas lições de humildade que servem de aviso à navegação e que nos fazem crer que sabemos sempre menos do que julgamos e que julgamos sempre mais do que sabemos.

Só acontece a quem lá vai…

(continua, em breve)